A falta de conhecimento sobre o autismo torna a sociedade despreparada para lidar com portadores

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No mês de Abril é celebrado o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Desde 2012, com a declaração da Lei nº 12.764, a pessoa com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é considerada portadora de deficiência para todos os efeitos legais, ou seja, possui direito ao acesso a políticas e benefícios sociais nesse âmbito.

Apesar de o nome ser amplamente conhecido, a população pouco sabe sobre o transtorno em si, e isso, além de incentivar o preconceito e apesar dos avanços já conquistados, cria obstáculos nas vidas dos pacientes, cuidadores e especialistas. A fim de esclarecer as principais dúvidas sobre o assunto, conversamos com a pediatra Zelma dos Santos e o neuropediatra Eduardo C. Da Silva.

Pergunta: O que é o autismo?

Eduardo: Ele não se trata de patologia única, é considerado um “espectro”. O transtorno do espectro autista (TEA), atualmente, é definido como uma alteração no neurodesenvolvimento, isto é, uma condição com início antes do período escolar. Ele é caracterizado por déficits persistentes na comunicação social recíproca e na interação social, associado a padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades. Esses sintomas prejudicam e limitam o cotidiano do portador.

Zelma: Não se conhece fisiopatologia definida para o quadro, ou seja, os fenômenos que o provocam. O transtorno é entendido como uma alteração do desenvolvimento infantil, ainda sem causas conhecidas.

Pergunta: Como ele pode ser identificado?

Zelma: Conforme o nome “espectro” sugere, existem variadas formas de apresentação do quadro. Algumas crianças podem apresentar sintomas desde um ano de idade, outras podem ter desenvolvimento normal até que haja uma estagnação ou regressão dos marcos de desenvolvimento da linguagem.

Eduardo: O diagnostico é, essencialmente, clinico. Ele é baseado nas observações e relatos do comportamento da criança em vários ambientes, como por exemplo: casa, escola, parque, etc. Exames complementares como: ressonância magnética, mapeamento cerebral, entre outros, devem ser utilizados criteriosamente, a fim de descartar diagnósticos diferenciais, de reconhecer morbidades e de pesquisar a etiologia subjacente ao TEA. Quanto mais cedo este reconhecimento, melhor será o prognóstico.

Pergunta: Quais são as principais alterações nas interações sociais, na comunicação e no comportamento que podem ser percebidas em uma criança autista?

Eduardo: Há alguns sintomas que alertam quanto a presença de TEA, como: a criança não corresponde a um sorriso; ela nunca ou raramente mantém contato visual; não chama atenção dos outros para algum brinquedo ou objeto que esteja manipulando e não olha quando tentam apontar algo para ela; não responde ou olha quando chamado pelo nome; ausência de lalação aos 12 meses, ausência de gestos de apontar e/ou fazer tchau aos 12 meses, não fala palavras simples aos 16 meses, não fala frase com 2 palavras aos 24 meses, qualquer perda de linguagem adquirida ou habilidade social em qualquer idade, intenso foco em rodas ou objetos que giram e movimentos repetitivos com objetos e/ou do corpo. Em resumo há um atraso na linguagem, em falar e formar frases, um déficit na reciprocidade, isto é, não compartilha olhares e emoção, uma intolerância às mudanças de rotinas e os interesses são restritos.

Pergunta: Qual especialista uma mãe que desconfie que o filho tenha autismo deve procurar?

Eduardo: O ideal é consultar um médico especialista em neurologia pediátrica ou psiquiatra infantil. O tratamento é realizado por equipe multidisciplinar, composta por médico, fonoaudiólogo, psicólogo, psicopedagogo, terapeuta ocupacional e, não menos importante, por todos os cuidadores da criança.

Zelma: O acompanhamento é realizado ambulatorialmente, com consultas realizadas de 6-12 meses para reavaliação das habilidades adquiridas no período. É importante, também, que a equipe seja composta por um pediatra geral, audiologista e um assistente social.

Pergunta: Quais comportamentos uma pessoa não deve ter quando se depara com uma criança autista em crise?

Eduardo: Não há uma receita pronta para todos os portadores de TEA, cada um possui suas particularidades.  A crise representa a expressão de um desejo ou um incomodo, e o adulto cuidador deve estar atento aos gatilhos, como: mudança de ambiente, sons altos e incomuns, mudanças sem aviso e atuar de modo a reduzi-los, e a partir daí buscar acalma-los. Algumas crianças se acalmam com o simples toque, leve e repetitivo, outras com o balançar de braços.Já os barulhos podem agravar, pois muitos possuem aversão ao som, então evite gritar, ou falar muito durante a crise. Procure sempre manter a calma e lembrar que não é birra e sim o modo encontrado para se expressar frente ao mundo.

Zelma: As pessoas não enxergam as dificuldades do autista e não veem suas limitações, o que prejudica a compreensão do transtorno. Para quem não tem ciência do problema é difícil, por exemplo, distinguir se é uma crise ou uma criança mal-educada. A sociedade precisa estar mais preparada, precisamos de uma maior divulgação sobre o autismo e as suas “várias faces”. Os autistas precisam viver bem, com qualidade de vida. Todos precisam do diagnóstico precoce e tratamento.

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